MIA na imprensa especializada

Reportagem sobre o MIA 2011 por Rui Eduardo Paes na revista Jazz.pt (nº 37, Julho/Agosto 2011)



(reproduz-se abaixo o texto integral generosamente cedido pelo seu autor)

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

E vão dois

ZNGR Electro-Acoustic Ensemble, Relentless, Ernesto Rodrigues em trio, PREC e Abdul Moimême com Ricardo Guerreiro destacaram-se na segunda edição de um evento do concelho de Peniche que já faz parte do circuito da improvisação.
texto Rui Eduardo Paes fotografia José Félix da Costa

Cumpriu-se no último fim-de-semana de Maio a segunda edição do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, desta feita aberto também a participantes estrangeiros. Apesar das mudanças introduzidas a esse nível, manteve-se a mesma filosofia descontraída e informal revelada na estreia em 2010. É isso mesmo que garante o carácter único desta iniciativa de dois músicos locais, Paulo Chagas e Fernando Simões, que conta com o apoio da Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro, de  nobre tradição no que respeita ao ensino musical, e está a conseguir uma invulgar implantação na comunidade residente desta freguesia de Peniche.
À primeira vista, dir-se-ia que se trata de um festival, e nessa perspectiva tem até os mesmos contornos de uma maratona de eventos musicais como a Festa do Jazz, mas diferencia-o o facto de na sua base estar não a ideia de "concerto", e sim a de "oficina". Fomentam-se os encontros de improvisadores por meio da constituição de grupos aleatórios, formados por sorteio na altura, bem como a realização de debates (este ano com Carlos "Zíngaro") e de "workshops" (nesta edição o do saxofonista alemão Reiner Hess), mas algumas formações fixas foram agora chamadas a intervir. Se a vertente pedagógica, de troca de experiências e de trabalho conjunto foi novamente a mais importante, acabaram por ser os concertos aqueles que proporcionaram os mais apreciados momentos musicais. Destacaram-se o ZNGR Electro-Acoustic Ensemble, os Relentless, Ernesto Rodrigues com Gianna de Toni e Guilherme Rodrigues, o colectivo PREC e a dupla Abdul Moimême / Ricardo Guerreiro.
Versão reduzida de um quinteto que, há uns anos, incluía Nuno Rebelo e Ulrich Mitzlaff, o trio de "Zíngaro" (violino, electrónica), Carlos Santos (electrónica) e Emídio Buchinho (guitarra eléctrica, electrónica) entusiasmou a plateia com uma música ora espessa, ora feita de pequenos pormenores, que ao longo da actuação desmentiu a frieza imputada aos computadores. Indo dos espaços abertos às massas sonoras, a prestação conciliou a electroacústica experimental com o "drive" da improvisação, resultando numa consistência de materiais, num entrosamento (tanto assim que, por vezes, era impossível descobrir quem fazia o quê) e numa fluidez de que só grandes músicos são capazes. Foi, sem dúvida, o maior "acontecimento" do MIA, e como tal assunto de conversa nos intervalos.
Muito boa impressão deixou também o duo de saxofones franco-espanhol Relentless, formado pelo alto Arturo Vidal e pelo tenor Sébastien Branche. Preparações móveis dos instrumentos e um uso permanente de técnicas extensivas, com maior evidência para a de respiração circular, serviram uma intervenção que trocou o fraseado e a expressão pela manutenção de texturas e ambiências, num registo próximo da "escola" reducionista e de saxofonistas como Jean-Luc Guionnet, Heddy Boubaker e John Butcher, convidando-nos a uma audição concentrada e imersiva.
Da estética "near-silence" partiram igualmente os Rodrigues pai e filho, respectivamente em viola e violoncelo, e a contrabaixista italiana, mas radicada em Ponta Delgada, Gianna de Toni, se bem que evoluindo para situações conotáveis com a música contemporânea, aqui ou ali evocando um Salvatore Sciarrino e um Helmut Lachenmann. Abordagens extravagantes das cordas e das madeiras dos instrumentos, com os arcos, os dedos ou objectos vários, expandiram as possibilidades de execução, e nada foi excluído das lógicas aplicadas – em meio ao abstraccionismo geral, uma micromelodia em repetição ganhou especial efeito, denotando um sentido de oportunidade e uma inteligência construtiva admiráveis.
O PREC dos acima mencionados Chagas (oboé, clarinete sopranino, flauta, saxofone alto) e Simões (trombone) com Paulo Duarte (guitarra eléctrica), João Pedro Viegas (clarinete baixo), Miguel Falcão (contrabaixo) e o "diseur" Paulo Ramos encenou musicalmente um poema de Almada Negreiros, "Os Ingleses Fumam Cachimbo". Com humor e um bom equilíbrio entre as passagens exclusivamente instrumentais e as faladas com suporte musical, sempre sem funcionalismos ilustrativos,  esteve-se entre o pós-free jazz e a música de câmara, constituindo uma agradável surpresa. A infelizmente demasiado breve actuação de Moimême e Guerreiro marcou também a diferença, associando as chapas, os brinquedos, o balde de água e as guitarras tornadas invisíveis, porque cobertas de "ferro-velho", do primeiro com os processamentos digitais em tempo real do seu parceiro, na apresentação do novíssimo álbum "Khettahu" e das suas bruitagens tão discretas em termos de volume quanto de intrigantes.
Menos conseguidas, mas com méritos de referir, foram as performances dos britânicos Kalendar,  com uma curiosa combinação entre a guitarra clássica poderosamente traficada por uma pedaleira de Stephen Shiell e o sintetizador modular Moog de Paul Ibram. Estridente e pouco dada a subtilezas, a improvisação destes pecou por isso mesmo. Muito prometeu nos primeiros cinco minutos a parceria entre o trompetista Luís Vicente e a electrónica do finlandês Jari Marjamaki, numa abordagem de óbvias referências em Jon Hassell e Arve Henriksen, mas a excessiva duração do concerto colocou ainda em maior evidência a circularidade das situações criadas. O facto de não se ir a lado algum tornou a sessão monótona.
Muitos dos músicos mencionados integraram os grupos sorteados à maneira das Company Weeks organizadas por Derek Bailey (regra geral, trios e quartetos), em breves ligações com os demais que rumaram a Atouguia da Baleia, entre nomes de maior ou menor relevo nacional e internacional como Paulo Curado, Monsieur Trinité, Manuel Guimarães, Ricardo A. Freitas, Eduardo Chagas, Fernando Guiomar, Ana Reis, Tiago Morgado, Pedro Santo, Afonso Castanho, Nuno Lima, Carola Ortiz, Daniel del Rio, Liam Slevin, Carmen Olaeia e outros, vindos do jazz, do rock, do experimentalismo, da electrónica e da "clássica". Como é natural acontecer em se tratando de improvisação, houve situações que não funcionaram, mas quando as diferentes "personas" colavam, obtinham-se algumas preciosidades da típica efemeridade da música improvisada.
A maioria dos presentes tocou ainda em duas intervenções do Ensemble MIA, uma livre, a outra com a direcção do maestro Vasco Pearce de Azevedo (Sinfonieta de Lisboa). As diferenças foram abissais: se uma resvalou perigosamente para a cacofonia, com poucas mais-valias musicais, a outra foi sendo estruturada "in loco", improvisadamente, mas confluindo numa (de resto, bastante interessante) composição, reflectindo os temas antes discutidos em colóquio, sobre precisamente as limitações e a natureza da estética improvisacional. Por tudo o que se passou e pelo estatuto já alcançado pelo MIA, este encontro é já incontornável no circuito português da improvisação. Para o próximo futuro, será mesmo de lhe vaticinar um papel fundamental. Torcemos por isso.

Rui Eduardo Paes
Jazz.pt (nº 37, Julho/Agosto 2011)